Sobra bom humor, sobram gentilezas, falta indignação. Sobra
gratidão, faltam cobranças. Por onde
começar, fico a me indagar, sem generalizar, apenas compartilhar uma
experiência pessoal e, se possível, resgatar um amor, sem mágoa e dor, o amor por um país com
dimensões incomparáveis. Um país desacreditado, que pecado, que precisa urgente
de atitudes, necessita ser mudado, necessita ser amado. Necessita romper com os
pré conceitos, de Norte a Sul, de Leste a Oeste, literalmente. Adiante, ao que
interessa, afinal meu objetivo aqui não é julgar, nem muito menos rimar, mas é demonstrar e te fazer pelo menos pensar
que há mais para ver do que você possa crer. Há mais 'preguiça', o bicho
preguiça, na mata do que na cidade. Perdoe o clichê, há muitos
"Brasis" dentro do Brasil. Sim, pois ir ao Pará significa talvez
conhecer o verdadeiro Brasil. A cultura brasileira de fato. Uma culinária
exótica, exuberante e peculiar que conquistou o mundo com o título internacional
de Cidade Criativa da Gastronomia, concedido pela Unesco, em dezembro de 2015.
E, quer saber, me conquistou também com um cheiro verde único. Do Açaí do seu
Caldeira, ao tacacá vendido na glamourosa Estação das Docas, ou os peixes, as
ervas e todo o cheiro do Ver - O - Peso, o maior mercado a céu aberto da
América Latina, aonde a vida acontece, ou nas barracas como da Edilene na noite
de Salinas, difícil não lembrar.
Impossível esquecer do som dos sapos de Breves. Uma cidade
de 104 mil habitantes que já não tem mais tantas madeireiras, mas é o cheiro da
madeira que predomina. O capim se espalha rápido pelas estradas. O barulho das
motos, de Belém à Ilha de Marajó, sem placa e com motoristas sem capacete. Os
refrescantes Igarapés. A luz vermelha em Belém indica que tem açaí. O sol
quente aparece cedo, mas basta um banho de água fria ou a chuva que forma um
grande chuveiro no céu para amenizar o calor. Os rostos se parecem, até que
cada um, do seu jeito especial toque seu coração. A música quase não para. Tudo
é motivo para comemorar, seja no bar ou em frente às calçadas com os vizinhos e
amigos, bora lá beber uma Cerpa ou uma Tijuca chefe, é frase que se ouve
comumente. No geral, apesar dos
problemas e das dificuldades diárias, pessoas falam calmamente, sem pressa.
Muitas cheias de problemas. Muitas dependendo de horas de viagens de um barco
para resolver atividades rotineiras que em outras cidades pelo país resolveriam
rapidinho. Falta infraestrutura, falta
compromisso das autoridades, mas sobra esperança e melhor ainda, sobram
sorrisos. Falta de hospitalidade?
"Négativu", como dizem por aqueles cantos, quase todo mundo
faz de tudo para receber bem, para tratar bem e para ser inesquecível. Égua,
Ninguém se incomoda de passar um cafezinho, rapidinho, seja do
"meninozinho", aos mais velhinhos.
Dentre as cidades que passei, Belém, Breves -a capital da
Ilha do Marajó, Capitão Poço, Ourém, Bragança e Salinas, como esquecer das que
eram para ser tão longas 12 horas rumo a Breves de barco, mas a experiência foi
rápida, graças a boa conversa do comandante aposentado Flávio Gonçalves de
Aquino, 74 anos, conhecedor de cada detalhe de um barco, homem cheio de
histórias para contar. São 60 décadas
vividas em viagens entre a ilha de Marajó e Belém. Uma simpatia de pessoa, que
mesmo podendo descansar há 15 anos, segue pelas estradas da vida, ou melhor,
pelos rios do segundo maior estado do país.
Turismo? Sem cinismo. Quem precisa de destinos prontos com
tudo isso e tanto para ser visto? Não é a toa que no Aeroporto Internacional
Val de Cans, em Belém, pasmem, um cartaz
na área de desembarque anunciava: “Pará, terra de gente boa”. E, 'ulha', 'égua,
tu é doido', põe boa nisso. Que país é esse que desconhecemos, que crescemos
achando que sabemos, infelicidade a nossa, mediocridade também. Mas ainda bem
que pelas estradas e rios da vida, entre partidas e chegadas percebemos sua
grandeza, tanta riqueza em meio a tantos contrastes, que nos assustam, mas
também inspiram! E novamente, de repente, a criação de Deus aparece dando tapas
na nossa cara. Agradeço a Deus por ter
conhecido cada lugar, cada pessoa, de parentes a amigos e, especialmente, louvo
a Deus pela vida do meu amado Eric Jardim, motivo pela qual pude desfrutar
dessa experiência maravilhosa. Mais uma vez, Deus realizou mais do que
imaginei. E a vida segue, mais no balanço da rede do que no vai e vem dos
carros. Até a próxima. Até "Breves".
